domingo, 8 de fevereiro de 2009

TU!


FOSTE O ÚNICO HOMEM ATÉ HOJE…
Por quem engordei como uma lontra desalvorada…
Por quem abri as pernas para estranhos com um sorriso nos lábios…
Por quem fiz depilação integral COM CERA à pechinica…
Por quem passei noites em claro a suspirar de amor ao ver-te dormir…
Por quem deixo de comer algo que me apetece muito só porque tu queres a minha parte…

A PARTIR DE ONTEM, ÉS TAMBÉM O ÚNICO HOMEM POR QUEM…
Fiz jejum em solidariedade…
Que me fez (e agora segurem-se, rapazes, que esta é que vos vai partir o coraçanito em 1000 pedaços) perder 30 aninhos de vida em menos de 24h. Oh larila, qual Jack Bauer com emissões em directo a fugir de/para terroristas? Tu sim, tornas a minha vida radical, pá!!!!

Antes de começar o relato, queria agradecer do fundo do coração a todos quanto deixaram mensagens, perguntas, emails, sms, telefonemas, sinais de fumo… ;o)

A alguns ainda não respondi mas estão registados. É bom sentirmo-nos acompanhadas nestas alturas e é bom ver que tenho tanta gente boa na minha vida. Obrigada.

Ora então cá vai:
O dia começou às 7 da manhã com uma dose substancial de leite que as ordens eram simples: comer o que quiser até às 11. Das 11 às 13 só água e/ou ice tea. Depois das 13 nada de nada, népias, nicles de néribi.

Às 10.30 foi servido um bife de peru com cogumelos acompanhado de arroz branco – que causou estranheza e foi debicado – e começou o programa de entretenimento para esquecer tudo quanto fosse consumível. Banho e Mickey Mouse e Gang dos Tubarões. Ao meio-dia e meia começou o desassossego:
- Quero comida, mamã!
- A mamã não tem comida em casa. Dorme.
- Não tens comida na tua casa, mamã? (ar mais incrédulo do mundo)
- Não. Dorme.
- Então dá-me eitinho.
- A mãe não tem leite.
- Não tens eite????? Mas dói-me a fome na baíga… (ai…)

5 minutos de beicinho sentido e adormeceu. Acordei-o quando o pai nos veio buscar para ir para o hospital. Às 4 fizemos o ‘check-in’.

Ida para o quarto. Pesar. Tentar fugir do quarto. Tirar a temperatura. Tentar fugir do quarto. Sendo que nas 2 horas de espera para ir para o bloco de operações houve forte tónica no ‘tentar fugir do quarto’.

A bata e touca da operação foram categoricamente recusadas e atiradas para debaixo da cama. Às tantas pediu-me colo e que fossemos descansar lá para fora. Sendo que com 16 kilos ao colo a andar de um lado para o outro do corredor, não sei se posso dizer que estava a descansar… O passeio foi marcado pela repetição de 2 frases: “Onde está a comida, mamã?” e “Onde é a rua, mamã?” (ai…)

O companheiro de quarto dele desceu para o bloco e o enfermeiro disse-nos que ele seria o próximo. Quando os pais do outro menino subiram, tive a antevisão de qual seria a minha expressão dentro em breve. Muito breve…

Tentei mais uma vez convence-lo a vestir a bata. A imagem dele a berrar enquanto médicos e enfermeiros lhe tiravam a roupa no bloco operatório, doía-me. Assim que começou a choramingar, a mãe do outro menino só me disse: “Não o obrigue. Ele vai ter muito que chorar quando chegar lá a baixo." (ai… 3 vezes…)

Finalmente, o enfermeiro veio chamar-nos. Ele saltou para o meu colo mas assim que viu a cama dele a andar, começou a ficar curioso. O enfermeiro sorriu-lhe e disse-lhe que a cama era como um avião e perguntou-lhe se queria ir na cama. Saltou-me no colo e foi todo excitado em cima da cama enquanto o enfermeiro fingia que fazia corridas de avião. Quando chegou à porta do bloco, estava todo entusiasmado a olhar para a porta fechada. Perguntei-lhe se queria vestir a roupa especial de super-homem daquele avião. Despiu-se num piscar de olhos e vestiu a bata. O enfermeiro enfiou-lhe o chapéu especial para andar naquele avião (leia-se touca). O anestesista abriu a porta preparado para mais um puto aos berros deparou-se com um anjo loiro e sorridente que deu um beijo à mãe e lhe saltou para o colo porque o enfermeiro lhe disse que ele era o piloto do avião e ia-lhe mostrar as máquinas. Espero que o seguro também cubra a psicanálise que ele vai ter que fazer devido à fobia de aviões!!!!!!

Voltámos para o quarto para esperar. Até nem estava a ser tão mau quanto eu esperava até que subiu o companheiro de quarto dele. O choro convulsivo e incontrolável. Os gritos dilacerantes que ele dava… Saí do quarto agarrada ao Lenny do Gang dos Tubarões e fui para o corredor porque não era necessário ali mais nenhuma mãe a chorar. E foi aí que perdi os primeiros 10 anos de vida do dia.

No corredor, o cenário não era mais animador. O velhote do quarto ao lado tinha tido um ataque e estava prestes a ‘partir’. A proximidade física fazia com que constantemente médicos e enfermeiros me viessem dar noticias que iam de mal a pior até que conseguíssemos fazer sinal a indicar que não éramos familiares e apontarmos os verdadeiros entes queridos. Posso mesmo dizer que fui a primeira a saber que tínhamos que nos preparar para o pior em relação ao velhote…

A assistência ao senhor e confusão gerada pela sua transferência para a UCI e consequente falha cardíaca durante o percurso com uma cena digna de qualquer Anatomia de Grey ou Er, fizeram com que a enfermeira se esquecesse de nos chamar para irmos com ela buscá-lo ao bloco. Queria evitar que ele fizesse todo o trajecto do bloco ao quarto sem nos ver. Comecei a ouvir os seus soluços ao longe. Acho que mesmo antes de serem audíveis. Disse ao pai que ele vinha aí. Que ouvia os soluços. Olhou-me como se olharia um bicho raro mas se houve algo que ele aprendeu, nos 6 anos que viveu comigo, é que é muito perigoso contrariar as pessoas insanas e seguiu-me até ao elevador.

Eu conheço aquele fedelho como me conheço a mim mesma e numa mão tinha o Lenny e na outra a sua Pê. Dei-lhe as duas coisas e vi no olhar sentido e ainda desfocado dele o reconhecimento. A certeza de que já não estava sozinho e os soluços foram acalmando.

Note to self: Anda uma mãe a sacrificar-se, a sofrer que nem uma condenada e um fedelho destes anestesiado por quem é que chama? Pelo Pai e pela Chupeta!!!!!!! Se bem que a escolha do pai, eu hoje perceba (durante todo o tempo no hospital, era a mãe para tudo excepto quando algum médico ou enfermeiro lhe ia fazer alguma coisa. Aí gritava pelo pai. Acho que se resumia a uma questão de tamanho!), agora a Chupeta? A Chupeta?????

As 3 horas que se seguiram foram calmíssimas. Ficou quieto, calmíssimo, deitado na cama. O seu parceiro, pelo contrário, berrou e esperneou o tempo todo chegando mesmo a arrancar o cateter. Mesmo quando adormeceu, soluçou o tempo todo. O Projecto ficou sempre sossegado. Bebeu o Ice Tea que lhe deram. Conseguimos, depois de muita insistência, convencê-lo a ir ao wc e, por fim, adormeceu.

O cirurgião veio vê-lo e acordou-o. Eram já 23h e foi-lhe dada alta clínica. Vesti-o enquanto o médico foi assinar as altas. Enquanto esperávamos a indicação para descermos, aconteceu o imponderável. O menino que não tinha dado nenhum sinal de problemas nas horas anteriores, fez a perfeita recriação do exorcista e começou a vomitar como se tivesse no estomago 4 doses de bifanas da feira. Nessa altura, já o parceiro de quarto tinha ido embora. O pai foi chamar o enfermeiro enquanto eu lhe tentava tirar a camisola que já lhe tinha vestido. O enfermeiro veio e pegou-lhe. Queria que ele ficasse de pé. Para lhe medir a força, percebi mais tarde. Nada. A carinha dele ficou transparente. Os olhos revirados. O enfermeiro pô-lo ao colo do pai, para lhe poder dar assistência e chamou-me para que ele me visse. Lembro-me da voz do enfermeiro bem perto dos meus ouvidos a dizer: “Olha para os olhos da mãe. Puto, olha os olhos da mãe… Ele não é assim tão branco, pois não?” Acho que respondi mas não me lembro. Só me lembro de começar eu a falar com ele. De lhe segurar no rosto. De o forçar a olhar para mim. Da transparência da pele. Da mancha de nascença na testa que só se nota nestas alturas. Lembro-me dos olhos desfocados dele e de quando começaram a focar, novamente. Da cor a voltar ao rosto. Dele a olhar-me nos olhos. De começar novamente a falar para dizer que queria o meu colo. Nesta altura, eu era já uma respeitável senhora de 54 anos. Acho mesmo que senti o cabelo a branquear no momento em que o peguei ao colo e me sentei na poltrona e lhe beijei a cara fria e húmida.
O cirurgião foi chamado, mas estava a jantar fora com a namorada/mãe (dependendo de quem dava a informação), portanto ía demorar uma meia-hora a chegar. Não deveríamos sair sem ele chegar. Como se houvesse força poderosa o suficiente neste mundo – ou mesmo no outro – que me fizesse arredar dali!

A indicação era mesmo continuar a dar-lhe ice tea ou água e assim fizemos.

O cirurgião voltou meia-hora depois e eu voltei a abençoar o senhor meu chefe que aqui há uns anos convenceu a administração a implementar seguros de saúde iguais para todos os funcionários e familiares como complemento salarial. Porque infelizmente só assim conseguimos este tipo de atendimento no nosso país. O tipo de atendimento que todos os meninos deveriam ter com enfermeiros constantemente com eles, com médicos que deixam os jantares e voltam para os hospitais, com o canal panda constantemente ligado, com auxiliares sorridentes, com janelas grandes, cortinas bonitas e paredes branquinhas. Mentalmente, fui comparando o hospital do avô com o hospital do neto. Lembrei-me em como no hospital do avô só se apanha um canal numa televisão minúscula numa enfermaria de 5 pessoas em que apenas 1 dos doentes tem ângulo para ver o ecrã; em como são tão poucas auxiliares que não andam, voam, mas ainda assim vão dando palavras de conforto a doentes e familiares; como há um enfermeiro para tantas salas… Devia ser igual para todos. Não precisava haver 3 enfermeiros para por um cateter num menino, mas se houvesse uma maior distribuição… Se houvesse mais justiça… Se fossemos todos iguais…

Mas adiante, o cirurgião examinou-o. A única explicação era reacção à anestesia. Ficar mais uma hora. Ao mínimo sinal de mau estar, internamento durante a noite com soro e analgésico.

Passado meia-hora levei-o ao wc e ele começou a revirar-me os olhos e a empalidecer, de novo. Sentença lida. Mais um furo na mão – e já iam 3 – e vá de ligar o soro e ó-ó. A mãe vai comer à sala dos enfermeiros por ordem da enfermeira – e já – e depois fica cá a dormir com o menino. Se bem que a mãe já era mais velha que a avó, por esta altura, e provavelmente deveria estar à beirinha de uma síncope cardíaca.

A noite passou calmamente e o Projecto dormiu de seguidinha. Acordou bem disposto e cheio de fome. Acho que isso ficou bem patente quando disse ao enfermeiro que queria “leite, xumo e cufé, xavor” e depois substituiu tudo por “batatas fitas com cáne”. Acabou por se contentar com um papo-seco com doce e um leite com chocolate que deglutiu com a mesma fineza com que um leão devora uma gazela depois de estar 2 semanas sem se alimentar.

Riu, brincou, veio o médico, observou-o, deu-lhe alta (take 2). Depois veio o enfermeiro, mudou o penso, tirou o cateter e finalmente viemos para casa. Chegado a casa, voltou a pedir-me “batatas fitas com cáne” e fiz-lhe a vontade. Voltou a comer como se não houvesse amanhã.

Dividiu a tarde entre dormitar e dar-me ordens. Sim, meus amigos, verdadeiras ordens:
- Mamã, muda o fiume. O Ruca parece-me mais melhor do que o Shrek.
- Mamã, vai-me buscar os meus binquedos. Eu não tenho xó exes. Vai uscar mais.

Se por acaso, eu lhe lançava um olhar 78 devido aos modos, acrescentava um “xavor!” como se efectivamente ainda me estivesse a fazer um xavor a mim!

Há pouco, por volta das 23h, o excesso de comida finalmente fez efeito na sua tripinha e gaijo que é gaijo até vai mijar ao colo da mamã, mas para outras ‘questões’ vai pelo seu pezito. Ora, o mecinho quando se apercebeu que podia andar e não tinha dores, até ensaiou uns pulos e uma sessão de escalada à bancada da cozinha para meu pânico, como devem calcular.

Depois de me cuspir mais 762476126541765497615465 ordens, de me ter pregado 7639756315348652636 sustos com as brincadeiras e precisamente a 5 segundos de ser vítima de um crime passional, adormeceu. Chamemos-lhe instinto de sobrevivência…

E eu se tivesse juízo, já estava a dormir também que não durmo nada de jeito há 2 noites…
P.S.: A todos os que chegaram aqui, os meus sinceros parabéns! Devia ter postado isto em episódios. Acho mesmo que é o meu maior post desta encarnação e da outra!!!!

9 comentários:

Loira disse...

:) Ufa. Mas correu tudo bem e isso é o q interessa. E as reacções à anestesia são mesmo manhosas :s.
beijo

Teresa disse...

Cheguei ao fim sim!!! Aqui tao longe e a ficar com um no no estomago com a reaccao do Projecto!!!! Ia vomitando o cafezinho!!!
Beijos grandes

Essência disse...

Genial! Mãe sofre...lolol, mas haja humor para deglutir a situação ;)))

Luz de Estrelas disse...

E o que mais me pôs a suar. Pois, imagino os 30 aninhos a mais... PORRA. Agora trata de os recuperar. Um beijinho ao menino

sandra disse...

amiga, já falei contigo por telefone mas foi de fugida e ... que susto! Tu és forte e ele foi um heroi. Agora aproveita os dias de descanso e mimo
Sandra

Mulheka disse...

Cheguei ao fim eheh
Ainda bem que correu tudo bem :)

Salta Pocinhas disse...

:)

Que alívio!

beijinhos e boa recuperação (dos dois :P)

Salta Pocinhas disse...

:)

Que alívio!

beijinhos e boa recuperação (dos dois :P)

Lara disse...

A minha foi operada há uma semana e meia. 3 em 1: tubinhos nos ouvidos, amígdalas e adenóides.
Mas, sabes, como a nossa Dra./Anjo Protector presta serviço no hospital "do avô" foi lá que foi realizada a intervenção. Pois, teve pontos negativos, claro, mas dois positivos face à tua experiência: o pai foi com ela ao bloco e só saíu de lá depois dela adormecer e eu estava lá no recobro quando ela acordou da anestesia e ficámos sempre com ela. Mas não quero recordar os momentos que se seguiram ao acordar da anestesia. Ainda me fazem ficar nauseada e angustiada...