Se há coisa que me fascina há muito tempo é haver quem apelide certo tipo de escrita como menor.
“Ai tu lês Nicholas Sparks? Ai credo, mulher, que parolice!”; “Ai Nora Roberts? Isso é mesmo para donas de casa que não têm nada que fazer.”; “Ai livros de vampiros? K’orror! Detesto ler coisas da moda!”
Meus amores, o que é isso dos géneros menores? É que eu não entendo. Não é menor em vendas… Não é menor em leitores…
Acho que no nosso país há muito o síndrome de intelectualóide. Vamos pegar num exemplo clássico: Margarida Rebelo Pinto! Se esta senhora se assumisse como escritora de literatura de cordel, vocês iam ver o sucesso (ainda maior) que ela tinha. Mas não. No único livro que eu li (e mesmo assim, confesso que não foi até ao fim) dela, ‘Não há coincidências’, há uma tentativa de enrolar uma história simples em palavras mais complicadas do que o necessário para que não se caia na tentação de confundir a escritora com uma autora cor-de-rosa. E qual é o mal de ser uma autora cor-de-rosa, pergunto eu? Porque todos nos querem convencer que são capazes de escrever a Ilíada, mas que ao fazê-lo preferem guardar essa escrita para si mesmo, porque é uma coisa intimista e que aquele livro em especifico que está nas livrarias foi apenas um exercício, um ensaio para alguma coisa, com um objectivo tão especifico que a maioria dos leitores não consegue visualizar tal meta?
Há mercado para o género. Dá dinheiro que se farta. É coisa que diverte a escrever. Porque é que há uma necessidade tão grande de sermos todos Dostoievsky’s? Porque há necessidade de a maioria dos autores no nosso país tentarem justificar a queca da Rita e do João com uma simbologia new age relacionada com um antigo ritual de sacrifico dedicado a uma divindade directamente relacionada com o tamanho do falo e a fertilidade das fêmeas. Haverá assim tanto mal em sexo ser apenas sexo?
Quem fala dos autores de livros, fala dos autores de blogues. Porque há a necessidade de classificar blogues? Aquele é cor-de-rosa; aquele é de politica; aquele é misógino; aquele é menor! O que é um blogue menor? Quer-se dizer, as mesmas pessoas que advogam a ideia de que um blogue é apenas um blogue e que são todos iguais e blá, blá, blá, whiskas saquetas, no minuto a seguir falam de blogues menores. Sou eu que estou a ver mal ou há aqui um certa incongruência?
Paremos com a adjectivação bacoca, meus senhores. Não há géneros menores. Pode haver géneros que não admiremos, géneros que não apreciemos, mas esses mesmos que nós tanto criticamos são os géneros maiores de muita gente. E eu, que já um dia sonhei ser uma Virginia Lobo (a coisa na nossa língua soa um bocadito estranha), hoje, se me dessem a escolher, era mas é uma Sveva Casati Modignani, uma Nora Roberts, uma Charlaine Harris, uma J.R. Ward… Ia passar os meus dias a criar famílias conflituosas, cheias de dinheiro, com passados obscuros que passam os seus dias a ter cenas de sexo escaldante na despensa e nas cavalariças e na garagem. Os dias em que não estivesse a criar esta gente que se ia tornar assim como que a modos de amigos com quem eu passava horas por dia, ia estar a gozar o belo do dinheirinho que ia ganhar com o ‘género menor’. Essa é que é essa… E com um plano tão fantástico, não sei que raio é que ainda estou aqui a fazer… Ah pois é… É que são menores e tal e não presta e são para donas de casa e para parvinhas, mas não estou assim, de repente, a ver muita gente que conseguisse fazê-lo… Pois é… País de treinadores de bancada, é o que nós somos…

