Hoje aconteceu o imponderável. Aquilo por que eu rezo há quase 4 anos que nunca acontecesse, deu-se no final da tarde.
Depois de um dia calmo em casa e um fim de tarde com amigos, decidimos levar os putos ao shopping. 2 mães, 2 crianças. Eles felizes, constantemente na brincadeira, ela provocadora, ele não lhe ficava atrás. Andavam de mão dada. Ela de mão dada com a mãe, ele de mão dada com ela.
Foram os 3 à Sportzone experimentar as bicicletas e eu fiquei na loja ao lado. Entraram passado um bocado. A mãe perguntou se íamos jantar. Eu respondi que sim. Ela olhou para baixo e tudo o que bastou foi a cara pálida dela a olhar de volta para mim com os olhos em pânico e a pergunta “Ele está contigo?”
Mas ele não estava.
Corri os corredores da loja e dele nem sinal. Sai cá para fora e comecei a correr, perdida, sem saber por onde começar.
Queria gritar o nome dele mas não conseguia. Corri para o segurança apenas para constatar aquilo que eu sabia. Que não conseguia falar. Não conseguia emitir um som. Ele olhava para mim e comecei a ouvir a voz dela a dizer-lhe que tínhamos perdido um menino de 3 anos. O meu menino…
Ele queria a descrição e ela só lhe conseguia dizer que ele era desta altura enquanto apontava para a própria filha e que tinha uma t-shirt azul do Cars e ele pedia mais e ela só falava na t-shirt azul do Cars. E eu não conseguia dizer nada. Eu não conseguia dizer que ele tinha os olhos azuis mais lindos do mundo e que quando sorria o mundo se iluminava. Eu não conseguia dizer nada…
Entrei na Sportzone e comecei a vasculhar cada recanto, cada corredor e só pensava que não conseguia respirar. O meu peito rasgava-se por dentro e eu desejei morrer. Pela primeira vez, eu quis morrer. Porque morrer era melhor do que sentir aquela dor que eu estava a sentir. Morrer seria uma bênção em comparação com aquela dor.
E pensava nela. Pensava na foto dela grávida, a uma semana de ter a própria filha, com o meu filho de dias ao colo. Pensava no quanto ela gostava dele assim como eu gosta da dela e doía mais porque eu sabia que ela estava a morrer também. Porque eu sabia que ela nunca se perdoaria se lhe acontecesse algo. E pensei em milhares de coisas parvas enquanto o meu peito se estilhaçava e eu atirava peças dos cabides da Sportzone por todo o lado.
No momento em que eu pensei que nunca mais na vida eu ia conseguir respirar porque não havia maneira de forçar o ar a entrar no peito, olhei para a porta e vi o segurança que me sorriu e apontou para fora. Para logo a seguir gritar ‘não’ e correr para mim a pensar que eu ía desmaiar enquanto eu me dobrava sobre mim mesma e finalmente começar a chorar convulsivamente.
Foi quando o vi aparecer, pela mão da tia. Ela a chorar e ele a soluçar e a chamar por mim. E agarrei-o. Agarrei-o como nunca o tinha agarrado antes. e embalei-o no chão do shopping ladeada por um segurança e uma loira gigante de lágrimas nos olhos que me perguntava com o olhar e depois com a voz se eu a odiava. E a única pessoa com quem eu conseguia falar sem soluçar era com ele enquanto o embalava. E ela dizer-me que ele estava a chorar porque ela lhe tinha batido porque ele estava escondido a ver toda a gente à procura dele e ainda apareceu a rir e aos pulinhos. Ela que devia estar a morrer como eu estava, deve ter-lhe arreado 2 valentes palmadas no rabo.
Depois foram os 2 conversar enquanto eu me acalmava. E fizeram as pazes mas ele ainda me veio dizer com uma grande lata que apanhou um ‘ganda xusto’ enquanto esfregava o rabo onde ela lhe deve ter batido. Pois deve ter apanhado deve…
Eu não sei quanto tempo se passou entre ela me perguntar por ele e o segurança me chamar. Na minha cabeça foram horas infindáveis, na realidade não sei, foram alguns minutos, mas agora enquanto eu continuo a chorar cada vez que me lembro do que aconteceu e vou olhá-lo a dormir, não consigo deixar de pensar em todos aqueles pais para quem não foi apenas um pequeno susto. Não consigo deixar de pensar…