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segunda-feira, 8 de março de 2010

DIZEM POR AÍ QUE SE DEVE CELEBRAR

Anda para aqui tudo alvoraçado com o Dia da Mulher. Uns são contra, outros são a favor, outros nem por isso.

Isso até era coisinha para me ser completamente indiferente se não fosse aquela mania que há de ‘ah e tal, nós gaijas somos as maiores’ que assola toda a passarinha neste dia.

É que se por acaso há dia que não me sinto grande espingarda é hoje. Senão vejamos: num mundo ideal, a existência deste dia não se justificava sem a paridade de um Dia do Homem. O facto de ainda existir um dia da mulher, significa que ainda há chão para percorrer, batatas para cavar, nesta coisa dos direitos femininos. Significa que ainda há uma qualquer desgraçada a quem estão a arrancar o clítoris algures (eu sei que é excisão, mas queria mesmo ser gráfica). Significa, sim, que ainda há mulheres a ser vendidas e compradas como pedaços de carne. Se isso me dá vontade de ir jantar com um grupo de gaijas? Não. O facto de ser uma mulher livre concede-me esse direito em qualquer dos 365 ou 366 dias do ano. Não sou obrigada a ir hoje. Se o dia de hoje me concede o direito de receber flores ou prendas? Tenho pachacha todo o ano. Novamente, qualquer dos 365 ou 366, consoante o caso, são bons para isso.

Se me vão dizer que é uma comemoração como outra qualquer, desculpem mas discordo. A existência deste dia serve para nos recordar o que falta ser feito e a forma que nós arranjámos de celebrar o evento é ir beber uns copos e ser umas gandas malucas por umas horas. Não me parece que tenha sido esse o objectivo. Querem celebrar o dia da mulher? Dancem nuas ao luar e homenageiem o vosso corpo livre de tortura. Vistam uma roupa bonita e decotada que enalteça a vossa beleza por oposição aos milhares que usam uma burka diariamente. Agarrem um homem e façam amor com ele até o deixarem exangue saboreando a ternura que ele vos dá em vez de vos forçar em actos que vos humilhem. Beijem os vossos filhos e aninhem-nos no vosso peito sabendo que a probabilidades de os levarem e os escravizarem são poucas. Digam às vossas amigas o quanto as admiram e as amam, sabendo que as vão ver amanhã e que não vão ser vendidas para a prostituição. Querem ser muita malucas? Vão até uma delegação da APAV e perguntem se precisam de alguma coisa para os refúgios da vítimas de violência doméstica porque isso é que requer uma boa dose de loucura e coragem.

Beber copos? Vou, com certeza. Num dia qualquer que me apeteça. Mas não vou hoje, de certezinha, que ontem deitei-me tarde a ver os Óscares e ainda estou na dúvida se o facto da Katherine ter dado a abada que deu ao James não se deverá à data em que o evento calhou. É que ser a 1ª mulher a receber o galardão da realização no dia em que foi… Lá diz a Margarida Rebelo Pinto: Sei Lá…

Hoje, vou enroscar-me com um gaijo de olho azul gigante debaixo de uma manta a ouvir a chuva cair e esperar que, um dia, todas a mães o possam fazer da mesma forma. Apenas porque assim o desejam. Que chegue um dia em que nenhuma o faça por receio de perder os seus filhos. Em que nenhuma o faça por medo do seu companheiro. Que chegue um dia em que o façam só porque sim. Seja ele dia da Mulher, do Homem, do Gato, do Piriquito ou do Macaco Pintado.