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sábado, 2 de maio de 2009

MEMÓRIAS

Memories_of_the_past_by_WiciaQ

Hoje fiquei sozinha em casa, pela primeira vez, desde que o pai morreu. Só tive noção de que não estava sozinha em casa desde há muito tempo quando me começou a faltar algo. Alguma coisa indefinida e que de inicio não conseguia entender. A meio da manhã, percebi. Faltava-me uma frase. Faltava-me o metro e oitenta e cinco a entrar em casa adentro (que sempre me pareceu pequena para ele) e fazer a pergunta sacramental: “Bom dia, miúda. Vou lá abaixo buscar o jornal, queres alguma coisa?”

Com a minha avó foi a mesma coisa. Via-a definhar, via-a literalmente morrer mas não me lembro – a minha mente bloqueia por completo – dessa parte. Eu nem sequer me lembro dela de cabelo curto que usou apenas nos dois últimos meses de vida. Lembro-me sempre do eterno cabelo irrepreensivelmente preso numa banana. Lembro-me do seu cheiro. Do seu ar arrogante, altivo, um nadinha aristocrático que eu sempre achei fabuloso numa mulher que não conseguiu concluir a 4ª classe e como isso a fazia infeliz (o facto de não ter estudado).

Fez até à 4ª classe porque fugia de casa com quando os 6 irmãos (todos homens) mais velhos iam para as aulas e aparecia-lhes lá. A minha bisavó, viúva, não a deixou fugir mais depois da 4ª classe que nas zonas rurais, nos anos 30, as meninas não precisavam de estudar.

Lembro-me da eterna história mal contada do seu casamento com o meu avô e que nunca saberemos ao certo se eles efectivamente eram casados ou não. De como lhe perguntava vezes, sem conta, acerca do casamento e ela, com o seu jeito tão particular e tão teimoso, se esquivava à questão. Só no funeral, se levantou um pouco o véu do mistério, o que me fez aumentar exponencialmente a minha admiração por ela (que a bem dizer já estava nos píncaros) e explicou tão bem a forma simples como ele encarava a minha união de facto (algo que nunca é bem encarado pelas avós). Só depois dela morrer, soubemos que em plenos anos 40, numa zona rural do norte do país, a mais nova de 7 irmãos, de uma família pobre se perdeu de amores por um homem 14 anos mais velho e com posses. A família dela não aceitava porque ele devia querer aproveitar-se dela (não deviam ver bem, que a mulher era linda de morrer, carago!) e era muito mais velho. A família dele não aceitava porque ela era pobre. A menina não vai de modas, deixa a casa da mãe, debaixo de pragas e maldições, de cabeça erguida e nariz empinado e vai viver com ele numa cabana à beira de um rio e assunto arrumado. Dizem os irmãos dela que a mãe em fúria, enquanto ela caminhava altaneira caminho abaixo, lhe atirou uma praga e um crucifixo gigantesco. A menina pára perante a agressão, volta-se para trás e diz: “Se pensa que cá o deixo, engana-se.” E de crucifixo na mão continuou caminho abaixo. O célebre crucifixo está ali, na casa ao lado, e mais do que um símbolo religioso, tornou-se num símbolo de amor e de determinação. Não sabemos se alguma vez chegaram a casar mas se o fizeram já foi depois de o meu pai ser concebido. O que explicou porque é que no seu leito de morte, já semi-inconsciente, quando o pai do Projecto entrou no quarto do hospital e alguém lhe disse que estava lá o meu namorado, ela se sentou indignada e, de dedo em riste, declarou: “Marido! Se vivem juntos estão casados e pronto!”

Lembro-me dos meus primeiros cinco anos de vida que foram passados com ela. Sim, que eu vim de férias aos 3 meses com ela a Portugal (para que ela pudesse exibir o primeiro elemento da nova geração a toda a família) e de férias continuo até hoje. Foi a ela que eu fiz passar as passas do Algarve com traquinices de alto calibre. Era na cama dela que eu me enfiava de manhã como hoje o meu filho faz comigo. Lembro-me que era capaz de passar horas com a cabeça no seu colo com ela a fazer-me festas no cabelo e como ela dizia que a massa incompreensível que forma o meu cabelo se deve ao facto de ter três tipos de cabelo diferentes: cabelos lisos, cabelos em canudo; e cabelo em carapinha. Lembro-me de estar sentada debaixo da figueira com o meu avô a comer melão no verão, toda lambuzada ou de como ele assava o milho e o barrava com manteiga. Lembro-me que ela fazia as melhores batatas fritas do mundo e até hoje nunca comi nenhumas iguais mas o óleo tinha que ser fula e a farinha para os bolos tinha que ser Branca de Neve do pacote azul ou estava tudo estragado. Lembro-me que não tocava em nenhum derivado do leite. Nem queijo, nem manteiga, nem nada que os contivesse. Detestava leite e adorava café e toda a descendência é igual. Nem o meu filho gosta de leite. Nunca gostou. Tenho que lhe deitar carradas de chocolate para a coisa descer porque se for branco entra e sai pela mesma via em tempo recorde.

Lembro-me de uma surra que ela me deu com os nervos do ‘que me poderia ter acontecido’ quando eu aos 4 anos empilhei cadeiras e bancos e trepei para cima de uma guarda-fatos para tirar uns brinquedos que lá estavam e voltei a descer com eles. Lembro-me que não me deixava brincar com algumas meninas da aldeia porque não eram ‘companhia para mim’.

Lembro-me que não era religiosa praticante. Sinceramente, nem me lembro de ir à igreja enquanto vivi com ela. Mas na Páscoa arejava as colchas que punha na janela para a procissão e o padre ia lá a casa beijar o santo. Um ano, um sobrinho dela levou-me na procissão (eu era mais ou menos a menina na mão das bruxas porque era a única criança). Deliciados pegaram na loirita dos caracóis e das bochechas e vestiram-na de anjo e lá fui eu. Quando passei por casa, dei uma de Carla Bruni e desatei a acenar a toda a família que estava à janela. Lembro-me da cara dela de escândalo. Dela a fazer-me sinais para parar de acenar. Não era religiosa mas respeitava os seus santos que tinha em casa e que ainda existem hoje. Lembro-me que me leu a história dos 3 pastorinhos e que eu chorei copiosamente.

Lembro-me de uma vez quase me esfregar com palha de aço porque, mais uma vez pegaram na loirita dos caracóis das bochechas e decidiram fazer dela menina das alianças no casamento de uma prima (a irmã do que me vestiu de anjo). Enfiaram-me (lembro-me tão bem) num vestido de veludo castanho e disseram-me para ficar quietinha. Eu fiquei impávida e serena a ver as senhoras a arranjar-se. Devo ter pensado, a certa altura, que me faltava perfume. Como o pechiché estava ocupado com as senhoras a arranjar-se e aqueles perfumes estavam fora de alcance, joguei mão à única coisa que devia ter à mão e que tinha um cheiro forte. Quando deram por mim tinha espalhado na minha pessoa e no vestido de veludo castanho um frasco de vicks vaporub. Tenho cá para mim que toda a gente ficou com o nariz desentupidinho naquele casamento…

Lembro-me que não me lembro de a ver chorar a não ser uma única vez. Lembro-me da arca de esferovite que ela trazia sempre que vinha a Lisboa de expresso ver as suas meninas (o que acontecia religiosamente 3 vezes por ano) carregadinha de coisas da quinta. Lembro-me das roupas que costurava e da disposição do seu quarto de costura e de como apenas costurava para certas senhoras e para nós e para ela. Não era daquelas costureiras que faziam bainhas e apertavam coisas, não. Ela era demasiado orgulhosa para isso… Fazia vestidos para casamentos, fazia vestidos de casamentos, fatos completos, sobretudos, casacos elaborados e eu ficava fascinada. Como fiquei maravilhada quando outra prima casou e ela fez-lhe um vestido que nada tinha a ver com os vestidos de noiva que eu conhecia. Muito simples, curto e azul… Passei horas à procura de agulhas e alfinetes que ela tinha que me manter ocupada e eu achava as coisas mais depressa do que o Santo António amarrado. Quando os meus apelos para que me ensinasse a costurar se tornaram demasiado insistentes, ensinou-me a bordar e a tirar moldes da Burda. Eu devia ter 5 ou 6 anos. Nunca me ensinou a coser. Tenho cá para mim que não o fez com medo de que eu quisesse fazer disso a minha vida e não, eu ia estudar. Estudar tudo o que ela não tinha podido estudar e ler livros, muitos livros. Quando lhe disse que não queria estudar queria ser cabeleireira (mais ou menos com a mesma idade) resolveu a coisa de forma simples: “Ai queres? Que nojo. Depois aparecem-te lá pessoas com piolhos e bichos no cabelo e tu tens que lhes mexer.” Acabou-se-me logo o sonho.

Nunca me lembro de a ver desalinhada. Era daquelas mulheres que quando aparecia para o pequeno-almoço, vinha imaculadamente vestida como se fosse sair (ainda que raramente o fizesse que a quinta dava trabalho que chegasse) e sem um único fio de cabelo fora do lugar.

Lembro-me que não me lembro de ir alguma vez ao médico. Nem com a cabeça partida ou com os cortes que me lembro de fazer. Tudo se resolvia com o fascínio da avó por sangue e pela medicina (“Ai se eu pudesse ter estudado… Hoje era médica… E uma boa médica…”) e com água oxigenada e terramicina, claro.

Lembro-me de uma inundação na quinta. De como eu e a minha bisavó ficámos no 1º andar a ver, da janela, o milho quase coberto por água. Lembro-me que ela sempre me disse que eu não podia lembrar-me destas coisas porque era demasiado pequenina quando aconteceram. Mas lembro-me…